Se amanhã surgir uma nova plataforma, a sua marca consegue ser reconhecida?

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Há uma espécie de superstição silenciosa no mundo da comunicação, a ideia de que o futuro vai exigir algo completamente novo das marcas. Como se o próximo formato fosse deitar abaixo tudo aquilo que conhecemos, no entanto, a questão é que nunca foi o formato. O desafio é o que as marcas escolhem acreditar sobre si próprias.

O ritmo a que surgem novas plataformas tornou-se quase impossível de acompanhar. Mal começamos a compreender uma, já existe outra a alterar novamente a lógica de consumo, a linguagem e o comportamento. O mercado deixou de ter períodos de adaptação; agora vive em aceleração contínua, e as marcas que não têm estrutura interna sólida acabam por passar mais tempo a reagir do que a comunicar com verdadeira intenção.

A pergunta “Se amanhã surgir uma nova plataforma, a sua marca consegue ser reconhecida?”, não é uma pergunta técnica, é uma provocação. Obriga-nos a confrontar a marca não no plano visual, mas no plano existencial. Se retirarmos o canal, a ferramenta, o layout… o que sobra que possa ser reconhecido?

Curiosamente, algumas das maiores marcas já responderam a esta pergunta há muito tempo, uma mudança de formato, quanto mais uma mudança de paradigma.

O ponto aqui é este: não estamos a entrar num futuro onde tudo é ameaça. Estamos a entrar não porque tenham tecnologia ou equipas gigantes mas porque construíram uma clareza tão profunda sobre quem são, que qualquer novo meio se torna apenas um novo sítio onde continuar a ser elas mesmas. A essas marcas, o futuro não assusta, pedir-lhes que existam numa plataforma ainda inexistente é quase irrelevante. O desafio delas não é a adaptação é a continuidade de visão macro, manter coerência, manter intenção, manter presença viva, mesmo quando o terreno muda, ter um objetivo uno e não estruturado por silos de expertise, continuar, e não reconstruir.

Mas, infelizmente, esta não é a maioria.

Quando o futuro deixa de ser uma ameaça e passa a ser um espelho

A maior disrupção que as novas plataformas trazem não é tecnológica, é estrutural e profunda. Expõem rapidamente o que sempre esteve frágil, mas escondido: marcas que nunca souberam explicar a si próprias porque existem, que dependem demasiado de artifícios, que confundem estética com identidade, que confundem volume com relevância.

Antes, estas fragilidades demoravam anos a revelar-se. Agora, bastam semanas, às vezes dias, para perceber que uma marca não tem estrutura interna suficiente para atravessar sequer num futuro onde tudo é amplificação. Uma plataforma nova não cria uma marca, amplifica o que ela já é para o bem e para o mal.

As marcas que já nasceram “flexíveis” não vão sentir a mudança

E não são só as pequenas que têm essa vantagem. Há grandes marcas que fizeram o trabalho duro, documentaram cultura, clarificaram linguagem, eliminaram ruído, simplificaram a arquitetura, treinaram equipas… e agora colhem um benefício raro de que podem entrar em qualquer canal sem ter de se redesenhar ou ser repensadas. Estas marcas não têm medo de um formato inesperado, nem de uma lógica algorítmica nova. Sabem que estão construídas com profundidade suficiente para não dependerem da moldura onde aparecem, para estas, o futuro não traz caos; traz continuidade.

 

A verdadeira disrupção está noutro lado

Enquanto muitos se ocupam com a ansiedade de “o que vem a seguir”, talvez a visão mais disruptiva seja reconhecer que o que vem a seguir importa menos do que aquilo que a marca decide ser agora. A revolução não está no canal, está na identidade, na sua presença e na sua construção.

Se amanhã surgir uma plataforma onde a interação é por voz, por gesto, por presença digital aumentada, por narrativa gerada em tempo real, nenhuma dessas realidades vai salvar uma marca frágil, o histórico e presença digital noutras plataformas não é apagada permanentemente. E nenhuma dessas realidades vai derrubar uma marca que já é forte.

A tecnologia pode passar, a construção e a cultura da marca fica.

No fundo, talvez a questão não seja antecipar plataformas, mas perceber até que ponto a marca suporta ser mudar de espaço. Uma marca que depende demasiado do contexto onde vive é sempre uma marca que ainda não encontrou a sua profundidade. E uma marca que já sabe quem é não precisa de se preparar para o futuro em pânico; limita-se a continuar, porque a coerência que tem hoje estende-se naturalmente ao que vier.

Algumas marcas vão enfrentar a próxima plataforma como quem enfrenta um território desconhecido. Outras vão entrar nela com a mesma naturalidade com que entram em qualquer lugar, a diferença não estará na tecnologia, mas na clareza que cada uma tem sobre si própria.

Talvez seja isso que esta pergunta revela, não um medo do que vem, mas um diagnóstico do que existe agora. Se amanhã surgir uma plataforma, a minha marca consegue ser reconhecida? Quem responde honestamente percebe imediatamente se tem trabalho por fazer ou apenas caminho por continuar. E essa consciência, por si só, já é futuro.

 

Sobre a autora:

Catarina Antunes, consultora de Marketing, Formadora com o seu foco em Branding, Comunicação e Estratégia de Marca.
Há mais de 20 anos que ajuda empresas e profissionais a estruturarem a sua identidade, posicionamento e comunicação de forma coerente, diferenciadora e eficaz.
Acredito que uma marca só é realmente forte quando existe clareza na estratégia, consistência na mensagem e coerência entre o que se diz e o que se faz, online e offline.
O meu trabalho passa por transformar ideias em estratégias com propósito: desde o diagnóstico de marca à definição do tom de voz, da arquitetura de comunicação ao plano de marketing, garantindo que cada ação tem um impacto mensurável e gera crescimento no negócio.
Trabalho com equipas e marcas que querem elevar a sua presença digital, tornando-a forte, atual e relevante, para amplificar o retorno de forma consistente.
Desenvolvo estratégias que unem design, marketing e comunicação, aplicando metodologias práticas e uma visão macro que liga o negócio à criatividade.
Como formadora e oradora, partilho conhecimento sobre Branding, Design e Estratégia com foco na aplicação real porque acredito que a teoria só tem valor quando gera resultados.