A ideia de framework universal no marketing e na gestão tem ganho estatuto de dogma, muitas vezes aplicada sem leitura de contexto ou pensamento crítico.
Paul Feyerabend foi um filósofo que ficou conhecido por criticar o método científico. É um dos meus autores favoritos na epistemologia sobretudo por um detalhe que muitos ignoram: ele nunca foi contra a ciência ou o progresso. O alvo de suas críticas sempre foi a burocratização do conhecimento. Ele batia na tecla de que o método científico, da forma como foi cristalizado, virou um clube elitista. Eram cientistas escrevendo para massagear o ego de outros cientistas, mais preocupados com o rebuscamento da prosa e com seus títulos de pós-doutor do que em se fazerem entender (especialmente para as pessoas “comuns”). E, tendo um pé na academia, constato que pouco ou nada mudou.
Se Feyerabend já tratou da academia, alguém precisa de assumir o trabalho ingrato de falar do mercado. E se trocarmos “ciência” por “gestão”, o cenário é idêntico.
Na última década, assistimos a uma explosão de metodologias, matrizes e playbooks sagrados. Ai de quem ousar sair da linha. Teve uma ideia e foi para o mercado sem MVP? Está condenado. Toca um projeto sem Product Owner e rituais de Scrum? Fracasso na certa.
A realidade, porém, atropela o manual. Já vi inúmeras startups a seguir a cartilha à risca (rodadas de investimento, mentoria, board C-level de grife, processos desenhados no Miro) para quebrar em seis meses. Do outro lado, já vi empreendedor triplicar o negócio sem fazer a menor ideia do que é um “canvas”, simplesmente porque acertou na veia do que o mercado queria.
Ferramentas e metodologias têm o seu valor. Uso várias com meu time todos os dias. Mas ferramenta é só ferramenta. Assim como método é só método. O problema começa quando o mercado de marketing e empreendedorismo resolve tratar metodologia como teologia. Framework virou dogma. O discurso corporativo foi inundado por siglas que as pessoas repetem como se fossem orações. E, tal como em muitas religiões, orações são repetidas no piloto automático, sem que ninguém lembre mais do propósito original daquilo.
Há um abismo entre incorporar boas práticas e transformar a empresa num laboratório de reprodução de slides de conferência. O mais curioso é como essa “religião do método” convive bem com a superficialidade. Vemos empresas com apresentações impecáveis, métricas da moda e vocabulário alinhado aos trendings do Web Summit, mas sem lastro operacional para sustentar metade do que pregam. O LinkedIn virou o habitat natural dessa dissonância. É possivelmente o lugar com mais ruído da internet, onde temos uma superpopulação de especialistas para uma escassez preocupante de trabalho real.
O que mais existe por aí é projeto que cumpre todos os ritos do playbook e implode, enquanto outros, que supostamente ignoraram o “obrigatório”, encontram o caminho porque olharam para a realidade e não para o manual. O mercado vive provando que a adoção cega de método não compensa a falta de discernimento. Talvez essa seja a parte impopular: é preciso saber interpretar o que está a acontecer à nossa frente, em vez de apenas replicar o que o guru do curso ou do livro mandou fazer. Aliás, convém desconfiar dos cursos onde o principal produto é o próprio guru. Talvez devêssemos ser bem mais exigentes com quem não mostra resultado para além do ‘próprio case’.
Não quero desmerecer livros ou autores. Vivo cercado deles e defendo o acesso ao conhecimento como algo sagrado. Mas exatamente por isso é importante lembrar que qualquer pessoa pode escrever um livro, e essa liberdade (que Feyerabend celebrava) é também a origem de certas complicações. Como não há filtro, qualquer ideia fraca hoje circula fantasiada de método infalível, bastando um banho de jargão técnico para soar inteligente.
Hoje convivemos com todo o tipo de “framework”. Temos as fórmulas mágicas, desenhadas exclusivamente para vender workshops, sedutoras no PowerPoint e inúteis na segunda-feira de manhã. E temos as metodologias sérias, validadas. A questão é que mesmo as sérias funcionam em ecossistemas específicos. O Vale do Silício não é Miranda do Douro, nem precisa de o ser. O empreendedor da aldeia pode conquistar o mundo, mas raramente vai conseguir isso copiando o roteiro de quem vive numa realidade oposta.
O que separa quem constrói algo relevante de quem segue a dancinha do TikTok corporativo é entender que metodologia nenhuma substitui a leitura de contexto. Empresas não vão à falência por falta de siglas chiques em inglês, mas sim por falta de clareza. E, sejamos honestos: muitas prosperam por pura sorte. Sorte de chegar antes, sorte de quase não ter concorrência. Há muita empresa que sobreviveu pelo acaso e depois reescreveu a própria história como se tudo fosse fruto de uma estratégia genial.
Feyerabend não queria o fim do método, somente o fim da crença de que existe um único método. Falta ao nosso mercado aceitar que não existe playbook universal. Existe trabalho sério, experimentação e a humildade de perceber que a realidade não cabe inteira dentro de um framework.
No fim, é só uma leitura entre tantas possíveis. O que vier depois, cada um decide se é insight ou apenas ruído.
Sobre a autor:
Luis Bei é COO da Drakkar OS e professor convidado no IPAM. Estrategista com 16 anos de carreira em marketing e comunicação, atuou no Brasil, Irlanda, Noruega, Portugal e Estónia, liderando projetos para empresas como Microsoft e Kantar, reposicionando healthtechs e e-commerces a nível global e dirigindo o marketing de uma das maiores produtoras de comédia da Europa.
Vive em Lisboa, é pai de dois, baterista e faixa preta em Kung Fu. Procura unir dados e criatividade, combinando a disciplina das artes marciais com uma liderança empática e a convicção de que a gentileza é a ferramenta mais poderosa para construir negócios sólidos.











